Posts by Demian

    Ao abrir os olhos (o que não foi nada fácil, parecia que as pálpebras estavam coladas, com algum tipo de cola grossa e que teimava em não sair) percebi que não sabia se era noite ou dia, se estava escuro ou claro, se eu estava morto ou vivo e, o que me incomodou mais um pouco, percebi que não me recordava quem eu era, muito menos onde ou quando estava.

    Ao tentar me levantar, notei que várias coisas me impediam de mexer, coisas frias, outras quentes, algumas secas, outras úmidas… Num esforço quase sobre humano, talvez mais que “quase”, consegui empurrar algumas daquelas coisas que insistiam em atrapalhar meus movimentos, e uma tênue luz parecia surgir de algum lugar, que meu cérebro ainda entorpecido não soube determinar a direção.

    Os sentidos estavam começando a voltar a funcionar, o primeiro que demonstrou estar em boa condição, foi o olfato, e, admito, não estava preparado para o que ele me informou: diversos odores, odores acres, metálicos, de frutas velhas, de carne, de carne putrefata, de sangue, sangue pulsante, sangue coagulado...Sangue em todas as suas variantes.

    Naquele ponto, o olfato despertou os outros sentidos de um modo estarrecedor, tudo aquilo, passei a sentir ao toque, no paladar, passei a ver uma infinidade de corpos, de diversas idades, etnias e estados de conservação, ou seria estágios de decomposição?

    Sentia o gosto de sangue, mas soube imediatamente que não era o meu, e não era um único, não era como um vinho varietal, aquele que é fermentado com apenas um tipo de uva, mas um assemblage, que é o vinho produzido com várias uvas, para chegar ao equilíbrio perfeito… Mas era um assemblage que parecia ter sido produzido com todas as variedades, porém, só harmonizava com carne, carne vermelha, a carne que, no melhor dos eufemismos, foi o vinhedo que produziu as uvas. Falava dos sentidos, mas agora, que me passei a ter maior controle deles, observo que um nada me diz: a audição. Nada ouço